O retorno do passado em Soldados de Salamina (2001) e O impostor (2014), de Javier Cercas : entre o tempo irrevogável e o tempo irreversível
Visualizar/abrir
Data
2026Orientador
Nível acadêmico
Doutorado
Tipo
Assunto
Resumo
Esta tese analisa dois romances de Javier Cercas, intitulados Soldados de Salamina (2001) e O impostor (2014). Saídos de conjunturas distintas, ambos são animados pelos efeitos das feridas do passado no tempo presente espanhol, mas o fazem de modos diversos. Enquanto Soldados propõe o resgate memorial do esquecido ex-soldado republicano Miralles, fazendo dele o centro do romance, O impostor tem como protagonista um falsário que, por quase três décadas, se fizera passar por um resistente ao fran ...
Esta tese analisa dois romances de Javier Cercas, intitulados Soldados de Salamina (2001) e O impostor (2014). Saídos de conjunturas distintas, ambos são animados pelos efeitos das feridas do passado no tempo presente espanhol, mas o fazem de modos diversos. Enquanto Soldados propõe o resgate memorial do esquecido ex-soldado republicano Miralles, fazendo dele o centro do romance, O impostor tem como protagonista um falsário que, por quase três décadas, se fizera passar por um resistente ao franquismo e um sobrevivente dos campos de concentração nazistas. Assim, enquanto o romance de 2001 homenageia a memória dos derrotados, o livro de 2014 se volta, em contrapartida, para as fragilidades da memória na Espanha atual. O objetivo central deste estudo, filiado primariamente à teoria da história, foi o de compreender como a permanência do passado, tratada diferentemente em ambos os romances, se vincula às categorias de irrevogável e de irreversível trabalhadas por Berber Bevernage. A fim de compreender as semelhanças e diferenças entre os romances estudados, buscou-se construir, a partir de uma interpretação intermediária entre a técnica e os argumentos que os constituem, uma metodologia que fosse capaz de relacionar os diferentes níveis de tais obras, o que foi alcançado mediante o exame da tripla correspondência entre a estrutura, a conjuntura, e os argumentos de Soldados e de O impostor. Tal esforço comparativo desaguou numa constatação relevante: a de que todos os romances históricos de Cercas são construídos a partir da conjunção de uma técnica – a autoficção e a hibridização de gêneros textuais – com uma temática – a dos efeitos do passado traumático da guerra civil e da ditadura franquista. Percebeu-se também que, no interior dos romances históricos cercasianos, Soldados e O impostor representam, no que toca à argumentação e à estratégia autoral, os dois polos extremos de uma fase literária. Submetendo ambas as obras ao crivo extenso de questionamentos “literários”, conjunturais e meta-históricos, constatou-se que cada elemento da tripla correspondência impacta e reforça os demais numa direção comum, que, não obstante, é diversa na comparação entre um romance e outro. Chegou-se daí à hipótese central deste estudo: a) a de que, de um lado, Soldados se caracteriza por uma ambiguidade mobilizada pela cronosofia irrevogável que, visível desde a estrutura da obra – uma autoficção predominantemente romanesca –, se estende ao contexto de 2001 – no qual as decisões sobre o que fazer com o passado ainda restavam por definir –, e se prolonga na própria argumentação do romance – em que as figuras de Sánchez Mazas e Miralles vão paulatinamente se distanciando, até ser estabelecido, por meio da equidade, o protagonismo do herói republicano; b) de outro lado, assentou-se que O impostor se caracteriza pela presença do irreversível, e em cujas páginas o tom prevalente não é o da ambiguidade literária, mas o da assertividade política. O que pode ser depreendido desde a estrutura do livro – uma autoficção predominantemente autobiográfica e um romance sem ficção eivado de teses de natureza histórica, no qual a voz autoral se destaca com limpidez –, passando pela conjuntura – pois em 2014 já vigorava a Lei de Memória Histórica, criticada por incontáveis intelectuais –, e por seus argumentos estridentes – sobretudo aqueles acerca da “chantagem da testemunha”. Questionou-se ainda, como complemento do objetivo central, quais seriam os desdobramentos éticos referentes à presença de uma e outra cronosofia em cada um dos romances estudados, uma vez que, ao lidar com as feridas históricas, ambos tiveram de oferecer saídas à questão eminentemente ética acerca do que fazer com o passado e de como recomeçar. ...
Resumen
Esta tesis analiza dos novelas de Javier Cercas, tituladas Soldados de Salamina (2001) y El impostor (2014). Provenientes de coyunturas distintas, ambas son animadas por los efectos de las heridas del pasado en el presente español, pero lo hacen diferentemente. Mientras Soldados propone el rescate memorial del olvidado exsoldado republicano Miralles, siendo él el centro de la novela, El impostor tiene como protagonista un farsante que, por casi tres décadas, se hizo pasar por un resistente al f ...
Esta tesis analiza dos novelas de Javier Cercas, tituladas Soldados de Salamina (2001) y El impostor (2014). Provenientes de coyunturas distintas, ambas son animadas por los efectos de las heridas del pasado en el presente español, pero lo hacen diferentemente. Mientras Soldados propone el rescate memorial del olvidado exsoldado republicano Miralles, siendo él el centro de la novela, El impostor tiene como protagonista un farsante que, por casi tres décadas, se hizo pasar por un resistente al franquismo y un superviviente de los campos de concentración nazi. Así, mientras la novela de 2001 rinde homenaje a la memoria de los derrotados, el libro de 2014 se vuelve hacia las fragilidades de la memoria en España actual. El objetivo central del estudio, relacionado primeramente a la teoría de la historia, fue comprender cómo la permanencia del pasado, distintamente abordada en las dos novelas, se vincula a las categorías de irrevocable y de irreversible trabajadas por Berber Bevernage. Con la intención de comprender las semejanzas y diferencias entre las novelas estudiadas, se buscó la construcción de una interpretación intermedia entre la técnica y los argumentos en que están constituidos, una metodología capaz de relacionar los diferentes niveles de dichas obras, lo que se alcanzó con el examen de la triple correspondencia entre la estructura, la coyuntura y los argumentos de Soldados y de El impostor. Tal esfuerzo comparativo desembocó en una constatación relevante: la de que las novelas históricas de Cercas son hechas a partir de la conjunción de una técnica – la autoficción e hibridación de géneros textuales – con una temática – la de los efectos del pasado traumático de la guerra civil y de la dictadura franquista. . También se percibió que, en el interior de las novelas históricas de Javier Cercas, Soldados y El impostor representan, lo que se refiere a la argumentación y estrategia autoral, los dos polos extremos de una fase literaria. Poniendo ambas las obras bajo el escrutinio de cuestionamientos “literarios”, coyunturales y metahistóricos, se percibió que cada elemento de la triple correspondencia impacta y refuerza los demás en una misma dirección, que, sin embargo, es diversa en la comparación entre una novela y otra. Con lo que se llegó a la hipótesis central de este estudio: a) la de que, por un lado, Soldados se caracteriza por una ambigüedad movilizada por la cronosofía irrevocable que, visible desde la estructura de la obra – una autoficción predominantemente romanesca –, se extiende al contexto de 2001 – en el cual las decisiones sobre qué hacer con el pasado aún quedaban por definir –, y se prolonga en la propia argumentación de la novela – en que las figuras de Sánchez Mazas y Miralles se van paulatinamente alejando, hasta que se establezca, por medio de la equidad, el protagonismo del héroe republicano; b) por otro lado, se estableció que El impostor se caracteriza por la presencia del irreversible, y su tono prevalente no es el de la ambigüedad literaria, sino el de la asertividad política. Lo que puede ser entendido desde la estructura del libro – una autoficción predominantemente autobiográfica y una novela sin ficción cargada de tesis de naturaleza histórica, en la cual la voz autoral se destaca con nitidez –, pasando por la coyuntura –ya que en 2014 ya estaba en vigor la Ley de Memoria Histórica, criticada por incontables intelectuales –, y por sus argumentos estridentes – sobre todo los relativos al "chantaje del testigo". Aún se cuestionó, como complemento del objetivo central, cuáles serían las ramificaciones éticas referentes a la presencia de una u otra cronosofía en cada una de las novelas, dado que, al manejar con las heridas históricas, ambas tuvieron que ofrecer salidas acerca de qué hacer con el pasado y cómo empezar de nuevo. ...
Abstract
This thesis analyzes two novels by Javier Cercas, titled Soldiers of Salamis (2001) and The Impostor (2014). Emerging from distinct contexts, both are animated by the effects of past wounds on present-day Spain, but in different ways. Whereas Soldiers of Salamis proposes to rescue the memory of a former Republican soldier called Miralles, making him the center of the novel, The Impostor features a forger who, for almost three decades, posed as a resistance fighter against Francoism and a surviv ...
This thesis analyzes two novels by Javier Cercas, titled Soldiers of Salamis (2001) and The Impostor (2014). Emerging from distinct contexts, both are animated by the effects of past wounds on present-day Spain, but in different ways. Whereas Soldiers of Salamis proposes to rescue the memory of a former Republican soldier called Miralles, making him the center of the novel, The Impostor features a forger who, for almost three decades, posed as a resistance fighter against Francoism and a survivor of Nazi concentration camps. On that account, while the 2001 novel honors the memory of the defeated, the 2014 book, on the other hand, addresses contemporary Spain's fragilities concerning its memory. The core objective of this study, primarily affiliated with Theory of History, was to understand how the permanence of the past, treated differently in both novels, is linked to the categories of irrevocable and irreversible as developed by Berber Bevernage. In order to understand the similarities and differences between the novels studied, an intermediate interpretation between the technique and the arguments that constitute them was sought, aiming to construct a methodology capable of relating the different levels of these works. That was achieved through an examination of the triple correspondence between the structure, the context, and the arguments of Soldiers of Salamis and The Impostor. Such comparative effort led to a relevant finding: that all of Cercas's historical novels are constructed from the conjunction of a technique – autofiction and the hybridization of textual genres – with a theme – the effects of the traumatic past of civil war and the Francoist dictatorship. It was also observed that, within Cercas's historical novels, Soldiers of Salamis and The Impostor represent, in terms of argumentation and authorial strategy, the two extreme poles of a literary phase. By subjecting both works to extensive literary, contextual, and meta-historical questions and a careful examination, it was found that each element of the triple correspondence impacts and reinforces the others in a common direction, which, nevertheless, differs when comparing one novel to the other. This led to the central hypothesis of this study: a) that, on the one hand, Soldiers of Salamis is characterized by an ambiguity mobilized by the irrevocable chronosophy which, visible from the structure of the work – a predominantly novelistic autofiction – extends to the context of 2001 – in which decisions about what to do with the past were still to be defined – and continues in the very argumentation of the novel – in which the characters of Sánchez Mazas and Miralles gradually distance themselves, up to the point in which the protagonism of the republican hero is established through equity; b) On the other hand, it was established that The Impostor is characterized by the presence of the irreversible, and in whose pages the prevailing tone is not that of literary ambiguity, but of political assertiveness. That can be inferred from the book's structure – a predominantly autobiographical autofiction and a non-fiction novel imbued with theses of a historical nature, in which the authorial voice stands out with clarity – as well as from the context – since in 2014 the Historical Memory Law, criticized by countless intellectuals, had already been enacted – and from its high-pitched arguments – especially those concerning the "witness blackmail". Additionally and as a complement to the central core, the ethical implications of the presence of each chronosophy in each of the novels studied were questioned, since, in dealing with historical wounds, both had to offer solutions to the eminently ethical question of what to do with the past and how to start over. ...
Instituição
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em História.
Coleções
-
Ciências Humanas (8369)História (751)
Este item está licenciado na Creative Commons License


