John Locke e o Mundo Colonial Atlântico : cristianismo, capitalismo e filosofia (1677-1704)
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Data
2025Orientador
Nível acadêmico
Mestrado
Tipo
Assunto
Resumo
Esta tese investiga como John Locke (1632-1704) pensou filosoficamente o mundo colonial atlântico na condição de agente e observador privilegiado da formação do sistema-mundo capitalista no início da modernidade, por intermédio do conceito de improvement. Valendo-se criticamente da vasta literatura recente sobre pontos específicos dessas relações, propõe deslocar o foco usual para uma história global do surgimento do capitalismo, na qual formação dos Estados europeus, guerras, financeirização, ...
Esta tese investiga como John Locke (1632-1704) pensou filosoficamente o mundo colonial atlântico na condição de agente e observador privilegiado da formação do sistema-mundo capitalista no início da modernidade, por intermédio do conceito de improvement. Valendo-se criticamente da vasta literatura recente sobre pontos específicos dessas relações, propõe deslocar o foco usual para uma história global do surgimento do capitalismo, na qual formação dos Estados europeus, guerras, financeirização, colonização, escravidão atlântica, cadeias globais de valor, Reforma protestante e missões evangélicas se revelam processos profundamente interligados. A pesquisa objetiva oferecer um panorama preciso do grau de familiaridade de Locke com esses processos, das posições concretas por ele adotadas e da forma de incorporação dessa experiência em sua filosofia. Para isso, procede a uma reconstrução biográfica e histórica e à leitura sistemática de suas principais obras, em constante cotejo com cartas, cadernos de anotações, livros de sua biblioteca, manuscritos inéditos e registros oficiais de sua atuação profissional. A principal hipótese interpretativa é a de que Locke, para além das referências explícitas à navegação, colonização, mineração e a povos e personagens americanos e africanos, oferece, nas próprias formulações de suas obras maduras, uma apreensão teórica em tempo real de dinâmicas específicas do mundo moderno em formação por meio de conceitos-chave aparentemente insuspeitos: o mandamento divino de aperfeiçoamento [improvement], a ideia de um “stock comum” material e intelectual “da humanidade” e a figura do “dinheiro comum” de prata instituído por “consentimento tácito universal”. A análise desenvolvida no núcleo da tese demonstra que o contraste entre uma Era de Ouro, na qual “ainda” viveriam povos americanos e africanos não submetidos à colonização, e uma nova Era, inaugurada pela instituição de um dinheiro mundial, dramatiza teoricamente o choque entre as múltiplas temporalidades desses povos e a temporalidade unívoca do “novo mundo” do capital. Estudando numerosos casos concretos, Locke compõe sua imagem da Era de Ouro com formas de propriedade, trabalho, comércio, governo, guerra e religião cujos limites, calcados em necessidades e conveniências reais, a temporalidade do dinheiro rompe, transformando o trabalho em força abstrata e reconfigurando o governo civil em regulador monetário e protetor da acumulação de capital, metamorfoses que o filósofo vê como conjunção ambígua de abundância e corrupção. A tese demonstra ainda que a escravidão atlântica aparece em Locke como produto específico dessa nova era. Sua ideia de “pessoa” distingue liberdade espiritual e sujeição civil, permitindo que a servidão de “escravos comprados com dinheiro” seja concebida como legítima. Embora sua epistemologia seja antiessencialista, incorpora o binarismo ‘Negro’/ ‘Branco’, mas sem dele extrair consequências teóricas: a raça não constitui a causa da escravidão, mas um de seus efeitos e instrumentos de gestão. Por fim, a reconstrução de uma teoria lockeana da conversão de “negros e índios” ao cristianismo mostra como educação, disciplina laboral e evangelização integram um mesmo projeto. Do quadro geral resultante sobressai como Locke teorizou com espantosa clareza muitas das dinâmicas e das consequências do capitalismo colonial nascente, apostando, porém, no papel dos governos civis e da religião cristã para refrear tendências mais catastróficas. ...
Abstract
This dissertation investigates how John Locke (1632–1704) philosophically conceived the Atlantic colonial world from the perspective of both an agent and a privileged observer of the formation of the capitalist world-system at the dawn of modernity, through the concept of improvement. Drawing critically on the extensive recent scholarship concerning specific aspects of these relationships, it shifts the usual focus toward a global history of the emergence of capitalism, in which the formation o ...
This dissertation investigates how John Locke (1632–1704) philosophically conceived the Atlantic colonial world from the perspective of both an agent and a privileged observer of the formation of the capitalist world-system at the dawn of modernity, through the concept of improvement. Drawing critically on the extensive recent scholarship concerning specific aspects of these relationships, it shifts the usual focus toward a global history of the emergence of capitalism, in which the formation of European states, warfare, financialization, colonization, Atlantic slavery, global value chains, the Protestant Reformation, and evangelical missions emerge as deeply interconnected processes. The research aims to provide a precise account of Locke’s familiarity with these processes, the concrete positions he adopted, and the ways in which he incorporated this experience into his philosophy. To this end, it combines a biographical and historical reconstruction with a systematic reading of his major works, constantly comparing them with his correspondence, notebooks, library holdings, unpublished manuscripts, and official records of his professional activities. The central interpretive hypothesis is that, beyond his explicit references to navigation, colonization, mining, and American and African peoples and figures, Locke’s mature works themselves offer a real-time theoretical understanding of specific dynamics of the emerging modern world through seemingly unremarkable key concepts: the divine commandment of improvement, the joined idea of increasing a material and intellectual “common stock of mankind”, and the notion of “common money” in silver established by “universal tacit consent.” The analysis at the core of the dissertation demonstrates that the contrast between a Golden Age, in which American and African peoples not yet subjected to colonization supposedly still lived, and a new Age inaugurated by the establishment of a world currency, theoretically dramatizes the clash between the multiple temporalities of these peoples and the singular temporality of capital’s “new world.” Examining numerous concrete cases, Locke constructs his image of the Golden Age through forms of property, labor, commerce, government, warfare, and religion whose limits, grounded in real needs and practical conveniences, are broken by the temporality of money, transforming labor into an abstract force and reconfiguring civil government as a monetary regulator and protector of capital accumulation; transformations that the philosopher viewed as an ambiguous conjunction of abundance and corruption. The dissertation further demonstrates that Atlantic slavery appears in Locke as a specific product of this new age. His concept of the “person” distinguishes spiritual freedom from civil subjection, allowing the servitude of “slaves purchased with money” to be conceived as legitimate. Although his epistemology is anti-essentialist, it incorporates the Black/White binary without deriving theoretical consequences from it: race is not the cause of slavery but one of its effects and instruments of governance. Finally, the reconstruction of a Lockean theory of the conversion of “Blacks and Indians” to Christianity shows how education, labor discipline, and evangelization formed part of a single project. Overall, the dissertation reveals that Locke theorized with remarkable clarity many of the dynamics and consequences of emerging colonial capitalism while nevertheless placing his hopes in the role of civil governments and the Christian religion to restrain its most catastrophic tendencies. ...
Resumen
Esta tesis investiga cómo John Locke (1632-1704) pensó filosóficamente el mundo colonial atlántico en su condición de agente y observador privilegiado de la formación del sistema-mundo capitalista en los albores de la modernidad, a través del concepto de improvement. Basándose críticamente en la amplia bibliografía reciente sobre aspectos específicos de estas relaciones, propone desplazar el enfoque habitual hacia una historia global del surgimiento del capitalismo, en la que la formación de lo ...
Esta tesis investiga cómo John Locke (1632-1704) pensó filosóficamente el mundo colonial atlántico en su condición de agente y observador privilegiado de la formación del sistema-mundo capitalista en los albores de la modernidad, a través del concepto de improvement. Basándose críticamente en la amplia bibliografía reciente sobre aspectos específicos de estas relaciones, propone desplazar el enfoque habitual hacia una historia global del surgimiento del capitalismo, en la que la formación de los Estados europeos, las guerras, la financiarización, la colonización, la esclavitud atlántica, las cadenas globales de valor, la Reforma protestante y las misiones evangélicas aparecen como procesos profundamente interconectados. La investigación tiene como objetivo ofrecer un panorama preciso del grado de familiaridad de Locke con estos procesos, de las posiciones concretas que adoptó y de la manera en que incorporó esta experiencia a su filosofía. Para ello, lleva a cabo una reconstrucción biográfica e histórica y una lectura sistemática de sus principales obras, confrontándolas constantemente con su correspondencia, cuadernos de notas, los libros de su biblioteca, manuscritos inéditos y registros oficiales de su actividad profesional. La principal hipótesis interpretativa sostiene que Locke, más allá de las referencias explícitas a la navegación, la colonización, la minería y a pueblos y personajes americanos y africanos, ofrece en las propias formulaciones de sus obras maduras una comprensión teórica, en tiempo real, de dinámicas específicas del mundo moderno en formación mediante conceptos clave aparentemente insospechados: el mandato divino del improvement, la idea de un “acervo común” material e intelectual de la humanidad y la figura del “dinero común” de plata instituido por el “consentimiento tácito universal”. El análisis desarrollado en el núcleo de la tesis demuestra que el contraste entre una Edad de Oro, en la que supuestamente aún vivían pueblos americanos y africanos no sometidos a la colonización, y una nueva Era inaugurada por la institución de un dinero mundial, dramatiza teóricamente el choque entre las múltiples temporalidades de estos pueblos y la temporalidad unívoca del “nuevo mundo” del capital. Estudiando numerosos casos concretos, Locke construye su imagen de la Edad de Oro a partir de formas de propiedad, trabajo, comercio, gobierno, guerra y religión cuyos límites, fundados en necesidades y conveniencias reales, son quebrantados por la temporalidad del dinero, transformando el trabajo en una fuerza abstracta y reconfigurando el gobierno civil como regulador monetario y protector de la acumulación de capital, metamorfosis que el filósofo concibe como una conjunción ambigua de abundancia y corrupción. La tesis demuestra además que la esclavitud atlántica aparece en Locke como un producto específico de esta nueva era. Su idea de la “persona” distingue entre libertad espiritual y sujeción civil, permitiendo que la servidumbre de los “esclavos comprados con dinero” sea concebida como legítima. Aunque su epistemología es antiesencialista, incorpora el binarismo Negro/Blanco sin extraer de él consecuencias teóricas: la raza no constituye la causa de la esclavitud, sino uno de sus efectos e instrumentos de gestión. Por último, la reconstrucción de una teoría lockeana de la conversión de “negros e indios” al cristianismo muestra cómo la educación, la disciplina laboral y la evangelización integran un mismo proyecto. En conjunto, la tesis pone de relieve que Locke teorizó con sorprendente claridad muchas de las dinámicas y consecuencias del capitalismo colonial naciente, aunque depositó su confianza en el papel de los gobiernos civiles y de la religión cristiana para contener sus tendencias más catastróficas. ...
Instituição
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em Filosofia.
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