Desenvolvimento regional e vitivinicultura na serra gaúcha : os atores da construção do território do vinho
Visualizar/abrir
Data
2025Autor
Orientador
Nível acadêmico
Doutorado
Tipo
Assunto
Resumo
Esta tese analisa as repercussões territoriais da vitivinicultura na Região Colonial Italiana (RCI) da Serra Gaúcha, com ênfase na atuação de diferentes atores sociais na conformação do território vitivinícola. O objetivo central consiste em explicar como as ações de viticultores, vinicultores, Estado, Igreja e empresas transnacionais moldaram o espaço vitivinícola ao longo do tempo, produzindo sentidos, estruturas e conflitos. Parte-se do pressuposto de que o desenvolvimento regional resulta d ...
Esta tese analisa as repercussões territoriais da vitivinicultura na Região Colonial Italiana (RCI) da Serra Gaúcha, com ênfase na atuação de diferentes atores sociais na conformação do território vitivinícola. O objetivo central consiste em explicar como as ações de viticultores, vinicultores, Estado, Igreja e empresas transnacionais moldaram o espaço vitivinícola ao longo do tempo, produzindo sentidos, estruturas e conflitos. Parte-se do pressuposto de que o desenvolvimento regional resulta de processos multiescalares de articulação, conflito e permanência entre grupos com distintos graus de poder e inserção territorial. A pesquisa adota abordagem qualitativa, baseada em análise documental, entrevistas com agentes estratégicos e revisão bibliográfica e historiográfica. Identificam-se cinco grupos principais de atores: viticultores, vinicultores, Estado, Igreja e empresas transnacionais. trajetória da vitivinicultura é dividida em quatro fases analíticas — policultura, expansão, especialização e espacialização — que evidenciam as transformações produtivas e territoriais associadas ao cultivo da videira e à elaboração de vinhos. O referencial dos Arranjos Produtivos Locais (APL) é utilizado para interpretar as interações entre agentes locais e institucionais, incorporando dimensões econômicas, culturais e políticas. A análise destaca o papel das políticas públicas, dos órgãos de pesquisa e das redes religiosas na consolidação técnica e simbólica do setor. Observam-se ainda tensionamentos fundiários e processos recentes de mercantilização da terra, marcados pela valorização imobiliária decorrente do enoturismo e pela pressão sobre áreas produtivas. Entre os resultados obtidos, evidencia-se a centralidade do cooperativismo como forma de resistência frente à instabilidade de mercado e à concentração de capital. Destaca-se também a contribuição estruturante das congregações religiosas — especialmente os Irmãos Maristas — na introdução de técnicas agrícolas e na formação educacional do campesinato, bem como a atuação estratégica dos órgãos públicos de ensino, pesquisa e extensão no fortalecimento técnico do setor. A institucionalização das Indicações Geográficas emerge como instrumento de valorização simbólica e mercadológica do território, ao mesmo tempo em que a expansão do enoturismo intensifica disputas fundiárias e a mercantilização da paisagem. A análise das relações de trabalho evidencia um sistema social como base da coesão social e da confiança nas relações produtivas. Trata-se de uma expectativa positiva construída sob incerteza, sustentada por vínculos cognitivos e emocionais capazes de superar o limiar da esperança, tornando o trabalho um espaço de reconhecimento mútuo, amizade e reputação, típico da vida orgânica comunitária. A tese contribui para os estudos em Desenvolvimento Regional ao articular, de forma situada, a ação de múltiplos atores e a geopolítica local na explicação das dinâmicas territoriais da vitivinicultura na Serra Gaúcha. Ao lançar luz sobre os vínculos entre economia, território e poder, o trabalho oferece subsídios para pensar estratégias de desenvolvimento endógeno, ancoradas na valorização das pequenas propriedades, na permanência camponesa e na construção coletiva do espaço. ...
Abstract
This thesis analyzes the territorial repercussions of viticulture in the Italian Colonial Region (RCI) of Serra Gaúcha, emphasizing the role of different social actors in shaping the wine-growing territory. The main objective is to explain how the actions of viticulturists, winemakers, the State, the Church, and transnational corporations have historically shaped this space, producing meanings, structures, and conflicts. The study assumes that regional development results from multi-scalar proc ...
This thesis analyzes the territorial repercussions of viticulture in the Italian Colonial Region (RCI) of Serra Gaúcha, emphasizing the role of different social actors in shaping the wine-growing territory. The main objective is to explain how the actions of viticulturists, winemakers, the State, the Church, and transnational corporations have historically shaped this space, producing meanings, structures, and conflicts. The study assumes that regional development results from multi-scalar processes of articulation, conflict, and continuity among groups with varying degrees of power and territorial integration. The research adopts a qualitative approach, based on documentary analysis, interviews with strategic actors, and bibliographic and historiographic review. Five main groups of actors are identified: viticulturists, winemakers, the State, the Church, and transnational corporations. The trajectory of viticulture is divided into four analytical phases—polyculture, expansion, specialization, and spatialization—highlighting the productive and territorial transformations linked to grape cultivation and winemaking. The Local Productive Arrangements (LPA) framework is used to interpret the interactions between local and institutional actors, incorporating economic, cultural, and political dimensions. The analysis highlights the role of public policies, research institutions, and religious networks in the technical and symbolic consolidation of the sector. Land tensions and recent processes of land commodification are also observed, marked by rising real estate values due to wine tourism and pressure on productive areas. Among the findings, the central role of cooperatives as a form of resistance to market instability and capital concentration stands out. Also notable is the structural contribution of religious congregations— especially the Marist Brothers—in introducing agricultural techniques and providing educational training for the peasantry. Public education, research, and extension agencies have also played a strategic role in strengthening the sector technically. The institutionalization of Geographical Indications (GIs) emerges as a tool for symbolic and market valorization of the territory, while the expansion of wine tourism intensifies land disputes and the commodification of the landscape. The analysis of labor relations reveals a social system historically rooted in reciprocity—mutual aid among neighbors and families—as the foundation of social cohesion and trust in productive relationships. This positive expectation is built amid uncertainty, sustained by cognitive and emotional bonds that surpass mere hope, transforming labor into a space of mutual recognition, friendship, and reputation, typical of organic community life. This thesis contributes to the field of Regional Development by articulating, in a situated manner, the actions of multiple actors and local geopolitics in explaining the territorial dynamics of viticulture in Serra Gaúcha. By illuminating the links between economy, territory, and power, it offers insights into endogenous development strategies anchored in the valorization of small farms, peasant permanence, and the collective construction of space. ...
Instituição
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Geociências. Programa de Pós-Graduação em Geografia.
Coleções
-
Ciências Exatas e da Terra (5371)Geociências (665)
Este item está licenciado na Creative Commons License


