Mortalidade pós-operatória no Brasil : identificação de procedimentos e especialidades prioritárias a partir de um estudo multicêntrico com 107.372 pacientes
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Data
2025Orientador
Co-orientador
Nível acadêmico
Especialização
Assunto
Resumo
Introdução: A cirurgia é um dos pilares centrais dos sistemas modernos de saúde e responde por impacto significativo na expectativa e na qualidade de vida. Estima-se que mais de 300 milhões de cirurgias sejam realizadas anualmente no mundo, com crescimento contínuo conforme aumenta a carga de doenças tratáveis por intervenção operatória. Paralelamente, complicações e mortalidade em 30 dias após cirurgia configuram um dos maiores problemas de saúde pública, com milhões de óbitos anuais atribuído ...
Introdução: A cirurgia é um dos pilares centrais dos sistemas modernos de saúde e responde por impacto significativo na expectativa e na qualidade de vida. Estima-se que mais de 300 milhões de cirurgias sejam realizadas anualmente no mundo, com crescimento contínuo conforme aumenta a carga de doenças tratáveis por intervenção operatória. Paralelamente, complicações e mortalidade em 30 dias após cirurgia configuram um dos maiores problemas de saúde pública, com milhões de óbitos anuais atribuídos ao período pós-operatório. Países de baixa e média renda concentram maior risco de morte, em contexto de acesso limitado a cuidados perioperatórios seguros, escassez de leitos de terapia intensiva e fragilidade de sistemas de vigilância. Estudos multicêntricos internacionais como EuSOS, ISOS, ASOS e LASOS demonstraram importante heterogeneidade de mortalidade entre regiões e especialidades, mas dados clínicos nacionais padronizados no Brasil ainda são escassos e frequentemente substituídos por informações administrativas pouco ajustadas por risco. Nessa realidade, identificar quais especialidades e tipos de procedimentos concentram maior risco torna-se fundamental para direcionar políticas e estratégias de melhoria da qualidade assistencial. Objetivo: Descrever a mortalidade pós-operatória em 30 dias por tipo de cirurgia e especialidade em uma grande coorte multicêntrica brasileira, identificar as categorias com maior risco ajustado e comparar o perfil brasileiro com padrões internacionais previamente descritos. Métodos: Estudo observacional descritivo baseado em uma coorte multicêntrica previamente construída, envolvendo dez hospitais brasileiros de diferentes regiões, públicos e privados, com distintos níveis de complexidade. Foram incluídos pacientes ≥16 anos submetidos a cirurgias eletivas ou de urgência em centro cirúrgico entre janeiro de 2017 e dezembro de 2018. Excluíram-se procedimentos exclusivamente diagnósticos, cirurgias sob anestesia local, cirurgias oftalmológicas, transplantes hepáticos, pulmonares e cardíacos, bem como doadores em morte encefálica. Em pacientes com mais de um procedimento no período, considerou-se apenas a cirurgia principal definida pelo protocolo original. O desfecho primário foi a mortalidade intra-hospitalar em até 30 dias após o procedimento índice. Foram coletadas variáveis demográficas e clínicas (idade, sexo, classificação ASA), natureza da cirurgia (eletiva vs. urgência), porte cirúrgico, tipo de financiamento, abordagem operatória e desfechos pós-operatórios. Os procedimentos foram inicialmente classificados por códigos administrativos (SIGTAP e CBHPM) e, posteriormente, agregados em 85 categorias clínicas, reorganizadas em 15 grupos amplos de especialidades para comparabilidade internacional. A análise estatística incluiu descrição da distribuição dos procedimentos e da mortalidade e modelo de regressão logística multinível com efeito aleatório para hospital, incorporando idade, ASA, urgência, porte e especialidade como preditores fixos, sem imputação de dados faltantes. Resultados: Foram analisados 107.372 pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos em dez hospitais brasileiros ao longo de 24 meses. A mortalidade intra-hospitalar em até 30 dias foi de 2,1% (n = 2.261). Cirurgias eletivas representaram 80,1% dos procedimentos, com mortalidade de 0,84%, enquanto cirurgias de urgência ou emergência corresponderam a 20% dos casos e concentraram 67% dos óbitos, com mortalidade de 7,1%. Idade, classificação ASA-PS, natureza da cirurgia, porte e especialidade apresentaram associação independente com mortalidade. Cirurgias torácicas, de cabeça e pescoço, do trato gastrointestinal superior e inferior exibiram as maiores razões de chance ajustadas, e o efeito hospitalar explicou 5,4% da variabilidade do desfecho. Conclusão: A mortalidade em 30 dias na coorte nacional esteve fortemente associada a idade avançada, maior gravidade fisiológica (ASA-PS), caráter de urgência e grande porte cirúrgico, além de expressiva variação entre especialidades. Procedimentos torácicos, de cabeça e pescoço e cirurgias do trato gastrointestinal superior e inferior apresentaram riscos ajustados superiores aos observados em estudos internacionais, indicando vulnerabilidades específicas do cenário brasileiro. As cirurgias de urgência concentraram a maior parte dos óbitos, apesar de representarem apenas um quinto dos procedimentos, evidenciando seu papel central no risco cirúrgico nacional. Esses achados reforçam a necessidade de estratégias direcionadas para otimização do cuidado perioperatório em grupos de maior risco, bem como o desenvolvimento de políticas que considerem particularidades estruturais e epidemiológicas do Brasil. ...
Abstract
Introduction: Surgery is a central pillar of modern health systems and has a decisive impact on life expectancy and quality of life. It is estimated that more than 300 million surgical procedures are performed worldwide each year, with continued growth driven by the expanding burden of diseases amenable to operative treatment. In parallel, 30-day postoperative complications and mortality represent major public health problems, accounting for millions of deaths annually. Low- and middle-income c ...
Introduction: Surgery is a central pillar of modern health systems and has a decisive impact on life expectancy and quality of life. It is estimated that more than 300 million surgical procedures are performed worldwide each year, with continued growth driven by the expanding burden of diseases amenable to operative treatment. In parallel, 30-day postoperative complications and mortality represent major public health problems, accounting for millions of deaths annually. Low- and middle-income countries carry a disproportionate share of this burden, within a context of limited access to safe perioperative care, scarce intensive care resources, and fragile surveillance systems. International multicentre studies such as EuSOS, ISOS, ASOS and LASOS have demonstrated substantial heterogeneity in postoperative mortality across regions and surgical specialties, yet standardized national clinical data in Brazil remain scarce and often replaced by administrative information with limited risk adjustment. In this scenario, identifying which specialties and procedure types carry the greatest risk is essential for guiding policies and strategies to improve surgical care quality. Objective: To describe 30-day postoperative mortality according to surgical type and specialty in a large multicentre Brazilian cohort, identify categories with the highest adjusted risk, and compare the Brazilian profile with previously published international patterns. Methods: This descriptive observational study used a previously established multicentre cohort including ten Brazilian hospitals of different regions, encompassing public and private institutions with varying levels of complexity. Patients aged ≥16 years undergoing elective or emergency surgical procedures between January 2017 and December 2018 were included. Exclusions comprised diagnostic-only procedures, surgeries under local anesthesia, ophthalmologic surgeries, and liver, lung or heart transplants, as well as organ donors with brain death. For patients undergoing more than one procedure in the period, only the primary surgery defined by the original protocol was considered. The primary endpoint was in-hospital mortality within 30 days after the index procedure. Demographic and clinical variables (age, sex, ASA classification), surgical characteristics (elective vs. emergency, surgical magnitude, funding type, operative approach), and postoperative outcomes were collected. Procedures were initially classified according to administrative coding (SIGTAP and CBHPM) and subsequently grouped into 85 clinical categories reorganized into 15 broader specialty groups to enable international comparability. Statistical analysis included descriptive evaluation of procedure distribution and mortality, as well as a multilevel logistic regression model with hospital as a random effect and age, ASA, urgency, surgical magnitude and specialty as fixed predictors, without imputation of missing data. Results: A total of 107,372 patients undergoing surgical procedures across ten Brazilian hospitals over 24 months were analyzed. Thirty-day in-hospital mortality was 2.1% (n = 2,261). Elective procedures accounted for 80.1% of surgeries, with a mortality rate of 0.84%, whereas emergency procedures represented 20% of cases and concentrated 67% of all deaths, with mortality of 7.1%. Age, ASA-PS classification, urgency, surgical magnitude and specialty were independently associated with mortality risk. Thoracic surgery, head and neck surgery, and upper and lower gastrointestinal procedures exhibited the highest adjusted odds ratios. Hospital-level variation accounted for 5.4% of outcome variability. Conclusion: Thirty-day mortality in this national cohort was strongly associated with advanced age, higher physiological severity (ASA-PS), emergency status and major surgical magnitude, in addition to marked variation across specialties. Thoracic, head and neck, and upper and lower gastrointestinal surgeries demonstrated higher adjusted risks than those reported in international studies, highlighting vulnerabilities specific to the Brazilian context. Emergency surgeries accounted for the majority of deaths despite representing only one-fifth of procedures, underscoring their central role in surgical risk nationwide. These findings reinforce the need for targeted strategies to optimize perioperative care in high-risk groups and for policies that address the structural and epidemiological particularities of surgical care in Brazil. ...
Instituição
Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Curso de Programa de Residência Médica em Anestesiologia.
Coleções
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Ciências da Saúde (1899)
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