Plataformização da violência : a circulação do discurso antigênero nas mídias sociais
Fecha
2025Tutor
Nivel académico
Doctorado
Tipo
Materia
Resumo
Os ataques antigênero são um fenômeno transnacional. Ao redor do mundo, diferentes atores, religiosos ou não, reúnem-se em uma oposição frontal ao avanço dos direitos sexuais e reprodutivos sob diversos, mas similares, pretextos. No Brasil, questões de gênero e sexualidade se tornaram ponto central da polarização política, sobretudo na última década. Embora não sejam novidade, os movimentos antigênero ganharam novo fôlego a partir da popularização das plataformas de mídias sociais. Em um cenári ...
Os ataques antigênero são um fenômeno transnacional. Ao redor do mundo, diferentes atores, religiosos ou não, reúnem-se em uma oposição frontal ao avanço dos direitos sexuais e reprodutivos sob diversos, mas similares, pretextos. No Brasil, questões de gênero e sexualidade se tornaram ponto central da polarização política, sobretudo na última década. Embora não sejam novidade, os movimentos antigênero ganharam novo fôlego a partir da popularização das plataformas de mídias sociais. Em um cenário de declínio da confiança na mídia tradicional e crise de credibilidade das instituições epistêmicas, essas plataformas não se consolidaram apenas como espaços de interação social, mas também de reorganização dos fluxos comunicacionais. Na confluência desses fatores, esta tese analisa a circulação do discurso antigênero no Facebook e no Instagram. Mais especificamente, são observadas as estratégias discursivas acionadas para ampliar a visibilidade de conteúdos antigênero em contextos de discussões políticas. Para a coleta de dados, foram selecionadas quatro discussões de repercussão nacional: (1) o debate sobre a “ideologia de gênero” durante a campanha eleitoral de 2022; (2) o início do julgamento da descriminalização do aborto voluntário; (3) a suposta implementação de “banheiros unissex” nas escolas brasileiras; e, por fim, (4) a possível proibição do casamento entre pessoas de mesmo gênero no Brasil. No total, acumulam 31.786 publicações no Facebook e 8.045 publicações no Instagram, somando mais de 38 milhões de interações. Em cada discussão política, são analisadas as 250 publicações que mais geraram interações em cada plataforma. A Análise de Conteúdo é utilizada para, qualitativamente, compreender os sentidos produzidos nas mensagens; e, quantitativamente, classificar e agregar regularidades/frequências. A pré-análise dos dados desvela a predominância de quatro estratégias discursivas: a desinformação; as teorias da conspiração; a Outrização e a escandalização. Os resultados apontam: (1) políticos são peça-chave na disseminação do discurso antigênero, sendo os principais responsáveis pela circulação de conteúdo desinformativo nas discussões sobre “ideologia de gênero” e “banheiros unissex”, e mensagens escandalizatórias nas discussões sobre a descriminalização do aborto e contra o casamento igualitário; (2) a desinformação antigênero é majoritariamente baseada na distorção ou descontextualização de documentos, projetos de lei e outras políticas públicas direcionadas aos direitos sexuais e reprodutivos; (3) as narrativas conspiratórias reforçam a existência de uma “agenda do gênero”; (4) o discurso antigênero se estrutura de maneira semelhante ao discurso populista de extrema-direita, com destaque para o uso do antagonismo entre “nós” e “eles” frequentemente traduzido como uma batalha entre o “bem” e o “mal”; (5) as mensagens antigênero buscam provocar “emoções morais” sobre direitos sexuais e reprodutivos, utilizando tom alarmista, adjetivos derrogatórios e trechos com letras garrafais. Também amplificam medos exacerbados sobre “monstros contemporâneos”, ganhando relevo uma retórica fortemente antitrans. Por fim, (6) o discurso antigênero é favorecido pelas affordances das plataformas, não apenas na circulação em larga escala, mas também na produção de sentidos. Sendo assim, o argumento desta tese é que o discurso antigênero seja compreendido enquanto uma fonte de violência simbólica, visto que contribui para a manutenção de um complexo mecanismo de regulação, controle e hierarquização dos corpos – e, por extensão, também dos sexos, dos gêneros, das sexualidades e das identidades. ...
Abstract
Anti-gender attacks are a transnational phenomenon. Around the world, different actors, religious or not, come together in frontal opposition to the advancement of sexual and reproductive rights under different, but similar, pretexts. In Brazil, issues of gender and sexuality have become a central point of political polarization, especially in the last decade. Although they are not new, anti-gender movements have gained new momentum with the popularization of social media platforms. In a scenar ...
Anti-gender attacks are a transnational phenomenon. Around the world, different actors, religious or not, come together in frontal opposition to the advancement of sexual and reproductive rights under different, but similar, pretexts. In Brazil, issues of gender and sexuality have become a central point of political polarization, especially in the last decade. Although they are not new, anti-gender movements have gained new momentum with the popularization of social media platforms. In a scenario of declining trust in traditional media and epistemic institutions, these platforms have consolidated themselves as spaces for social interaction and also for reorganizing communication flows. Therefore, this thesis analyzes the circulation of anti-gender discourse on Facebook and Instagram. More specifically, it observes the discursive strategies used to increase the visibility of anti-gender content in contexts of political discussions. Four discussions were selected: (1) the debate on “gender ideology” during the 2022 election campaign; (2) the voting on the decriminalization of voluntary abortion; (3) the alleged implementation of “gender-neutral restrooms” in Brazilian schools; and, finally, (4) the possible ban on same-sex marriage in Brazil. In total, there are 31,786 posts on Facebook and 8,045 posts on Instagram, generating over 38 million interactions. For each political discussion, the 250 posts with most interactions on each platform are analyzed. Content Analysis is used to understand the meanings produced in the messages qualitatively; and, quantitatively, to classify and aggregate regularities. Preliminary data analysis reveals the predominance of four discursive strategies: disinformation; conspiracy theories; othering; and scandalization. The results indicate: (1) politicians are key players in the dissemination of anti-gender discourse, being the main ones responsible for the circulation of misinformation in discussions about “gender ideology” and “gender-neutral restrooms,” and scandalous messages in discussions about the decriminalization of abortion and against same-sex marriage; (2) anti-gender disinformation is mostly based on the distortion or decontextualization of documents, bills, and other public policies aimed at sexual and reproductive rights; (3) conspiracy narratives reinforce the existence of a “gender agenda”; (4) anti-gender discourse is structured similarly to far-right populist discourse, with emphasis on the use of antagonism between “us” and “them” often translated as a battle between “good” and “evil”; (5) anti-gender messages seek to provoke “moral emotions” about sexual and reproductive rights, using an alarmist tone, derogatory adjectives and passages in bold letters. They also amplify exacerbated fears about “contemporary monsters”, giving prominence to strongly anti-trans rhetoric. Finally, (6) anti-gender discourse is favored by the affordances of platforms, not only in large-scale circulation but also in the production of meanings. Therefore, this thesis argues that anti-gender discourse should be understood as a source of symbolic violence, since it contributes to the maintenance of a complex mechanism of regulation, control, and hierarchization of bodies – and, by extension, also of sexes, genders, sexualities, and identities. ...
Institución
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação. Programa de Pós-Graduação em Comunicação.
Colecciones
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Ciencias Sociales Aplicadas (6478)
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